sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

Entrevista exclusiva com o Papai Noel


Acabei de conversar com o Papai Noel! Acredite. Tentei o contato, inicialmente, por celular, mas o “Bom Velhinho” não o atende de jeito nenhum. Tentei contato por telefone fixo. E nada. Depois de muita insistência, consegui falar com um dos seus duendes assessores e agendei quinze minutos de conversa pelo WhatsApp. Noel, que ainda está no Polo Norte se preparando para visitar bilhões de residências em todo o mundo, a partir da meia-noite do dia 25 de dezembro, fez declarações surpreendentes, bombásticas, nesta entrevista exclusiva. Acompanhe.

CSZ: Grande Papai Noel, que prazer falar com o senhor! Tudo bem? Em primeiro lugar, como devo chamá-lo?
Papai Noel: Ho, ho, ho! Boas festas! Gosto muito dos brasileiros! Os alemães me chamam de São Nicolau. Em Portugal, eu sou o Pai Natal. Nos Estados Unidos, o Santa Claus. Aí no Brasil, muitos me chamam de Noel, mesmo. Mas também gosto muito de ser chamado de Bom Velhinho. 

CSZAh, sim, Bom Velhinho... Noto que o senhor é bem diferente do Aniversariante, o Senhor Jesus Cristo, que — inexplicavelmente — é esquecido nesses dias de festas natalinas. Ele, quando veio ao mundo, foi chamado por um rapaz de bom, e disse que bom era Deus, dando toda a glória para o seu Pai.
Papai Noel: Em primeiro lugar, para que continuemos a conversar, meu filho, me poupe dessas comparações, pois muitos gostam de me criticar nessa época. Já me falaram até que a pessoa citada — prefiro não mencionar o seu nome —, além de ser o verdadeiro Aniversariante, tem o melhor presente só porque declarou: “Eu sou o caminho, e a verdade, e a vida”. Por favor, não me compare com Ele. Eu sou bom porque faço a alegria das crianças, e elas me adoram! Aliás, elas apenas gostam muito de mim. Quem me adora mesmo são os adultos!

CSZ: Desculpe-me. Mas, e as crianças miseráveis do continente africano, do Brasil... O que o senhor tem feito por elas?
Papai Noel: Ho, ho, ho! Você acha que eu tenho tempo para os pobres? Não sou como certo Belemita, que viveu numa pobre cidade chamada Nazaré e tinha prazer em estar com os pobres. Eu até fico com pena das crianças pobres, pois elas acreditam mais em mim que as ricas. Mas é a vida, meu filho. Temos de agradar aqueles que podem nos dar alguma coisa em troca.

CSZComo assim, Papai Noel? Essa sua mentalidade parece a mesma dos pregadores da Teologia da Prosperidade. O senhor também propaga essa falácia?
Papai NoelOh, sim! Ho, ho, ho! Eu sou o próprio deus dessa teologia! E os pregadores dessa teologia são os meus servos!

CSZO quê?
Papai NoelIsso mesmo. As pessoas que seguem à Teologia da Prosperidade me cultuam, mesmo sem ter consciência disso.

CSZSim, eu sei que muitas criancinhas creem que o senhor lhes traz presentes, mas nunca imaginei que se considerasse um deus.
Papai NoelHo, ho, ho! Você não conhece nada a meu respeito. As crianças não são as minhas verdadeiras seguidoras. Elas vivem no mundo da fantasia e acreditam ingenuamente em mim apenas no mês de dezembro. Mas os meus verdadeiros seguidores são pessoas adultas, interesseiras, que vão a templos evangélicos durante o ano todo, não para cultuar o Belemita, o Nazareno, do qual elas se dizem discípulas. Elas só querem receber presentes. E, com isso, as minhas igrejas-negócios só crescem!

CSZE o senhor dá a essas pessoas o que elas realmente sonham?
Papai NoelHo, ho, ho! Não me faça rir. Você acredita em Papai Noel? Na verdade, elas se iludem, e algumas delas acabam sendo abençoadas pelo Belemita, que se compadece delas. E, graças a Deus — ops! —, elas não reconhecem isso. Preferem dizer que as suas vidas mudaram porque foram à igreja tal, participaram da campanha tal, conheceram o apóstolo fulano de tal... Dificilmente, para a minha alegria, glorificam o Homem de Nazaré.

CSZEu não acredito que o senhor está enganando essas pobres pessoas sonhadoras. Quem é o senhor, de fato?
Papai NoelComo eu já lhe disse, por um lado estou nas fantasias das crianças. Não sou real. Por outro, estou no coração de muitos que se dizem seguidores do Belemita, porém seguem aos ensinos dos meus liderados, que se apresentam com títulos variados: patriarcas, bispos, apóstolos, conferencistas internacionais... É claro que existem os verdadeiros representantes do Homem de Nazaré, os apologistas que se levantam contra a minha obra, mas eles são minoria.

CSZMas, Noel, o senhor está enganado. Nessa época do ano, a maioria dos cristãos se opõe ao senhor e verbera contra coisas pagãs, como árvore de Natal, Papai Noel etc. Todos nós sabemos que você nada tem que ver com o verdadeiro sentido do Natal.
Papai NoelHo, ho, ho! Aí é que você se engana. Alguns pais são tão rigorosos, a ponto de proibirem as pobres criancinhas de tirar fotos com aquele exemplar de Papai Noel no shopping center. Eles tiram delas a alegria de abraçar um velho fofinho, simpático e sorridente, em dezembro. Mas, na verdade, eles — paradoxalmente — me cultuam durante o ano todo!

CSZO senhor pode explicar melhor como isso ocorre?
Papai NoelClaro. Eu me aproveito das necessidades das pessoas e do fato de elas serem, por natureza, interesseiras. Por exemplo, é difícil ouvir cristãos dizendo que vão aos cultos para adorar o Nazareno. Antes, afirmam: “Hoje eu vou lá buscar a minha bênção”. E, quando chegam ao templo, os meus liderados tiram proveito disso, massageando os seus egos e lhes dizendo que a vitória financeira e a realização de todos os sonhos estão garantidas, pois o seu deus (no caso, eu), que sonhou todos os sonhos deles, está ali para mudar as suas histórias. Conclusão: todos participam de campanhas para receber prosperidade e a unção financeira dos últimos dias.

CSZQuer dizer que o senhor também está por trás dessa polêmica unção financeira?
Papai NoelOlha, meu filho, se é polêmica, eu não sei. Só sei que o Natal dos meus liderados serágordo! Ho, ho, ho! Alguns têm comprado até jatinhos! Eles estão melhores do que eu, pois ainda estou andando de trenó. Ho, ho, ho!

CSZ(Não acredito que estou lendo isso!) Papai Noel, por favor, uma última pergunta, pois eu sei que o senhor está se preparando para visitar muitas casas à meia-noite do dia 25.
Papai NoelSim, é verdade. Mas também tenho visitado inúmeras igrejas evangélicas para entregar aos meus seguidores várias “caixas de presente”. Antes que você pergunte, essas “caixas” são, na verdade, as palavras de vitória que os meus liderados dizem aos pobres sonhadores, nessa época: “Você nasceu para vencer”, “2016 será o ano da colheita”, “A sua história mudará”, “Ouse sonhar”.

CSZBem, finalizando, muitos estão preocupados em condenar o lado fantasioso e consumista do Natal: árvores, enfeites, fotos com Papai Noel no shopping, ceia de Natal, troca de presentes... E o senhor me mostrou que existe um problema muito maior: um culto tácito, indireto, ao deus Papai Noel. Mas, por que o senhor faz questão de iludir as pessoas?
Papai NoelNa verdade, meu filho, eu estou a serviço do príncipe deste mundo, também conhecido como o deus deste século, e ele odeia o Belemita. O maior prazer do meu chefe é afastar as pessoas, mesmo as que estão dentro das igrejas, do verdadeiro sentido do Natal.

CSZAh, entendi. Agradeço-lhe, senhor Noel, pela importante e reveladora entrevista que nos concedeu. Deixe uma última palavra aos evangélicos brasileiros, por favor.
Papai NoelHo, ho, ho! Nunca digam “Feliz Natal” ou “Merry Christmas”! Não digam nada que faça as pessoas se lembrarem do Menino de Belém. Digam apenas “Boas Festas” ou “Happy Holidays”. Continuem dizendo que o Natal é uma festa pagã e verberando contra essa celebração. Assim, eu ganho duas vezes, pois ninguém fala da encarnação do Homem de Nazaré e ainda me cultua, tacitamente. Ho, ho, ho!

Ciro Sanches Zibordi
Fonte CPAD
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